Veículos elétricos em condomínios: Riscos e acidentes
A grande e crescente demanda por veículos elétricos, principalmente nos grandes centros urbanos, vem levantando diversas discussões, seja quanto aos riscos de carregamento das baterias, seja no deslocamento e usos indevidos em áreas comuns. Um dos principais pontos conflitivos se dá, e avança rapidamente, em áreas de condomínios residenciais e comerciais.
Cidade: o trânsito e a mobilidade individual
Se por um lado, o uso de veículos de mobilidade individual com propulsão, como a bicicleta elétrica (E-Bikes), por exemplo, já reflete no atendimento às questões de sustentabilidade. Por outro lado, as adequações necessárias para os empreendimentos, requerem atenção redobrada. A regulamentação de uso (ambiente público ou privado), a previsão de infraestrutura necessária para seu carregamento e principalmente os níveis de segurança para armazenagem, tanto para usuários como para ocupantes de um entorno próximo, são alguns exemplos. Para entender melhor a questão legal e saber os cuidados e riscos envolvidos, a REVISTA enviou um repórter para entrevistar o especialista Ricardo Sigel, da Garage Plan.
Repórter da Revista dos Condomínios – Diante do aumento da utilização de tais veículos imagino que tenhamos legislação para regular esse setor, correto?
Ricardo Sigel – Em junho de 2023 foi publicada a resolução nº 996 do CONTRAN, onde é qualificada a utilização de mobiliários elétricos (Bicicletas elétricas e ciclomotores) em vias públicas.
“as concessionárias tratam o condomínio como se fosse uma única residência, atingindo sempre a faixa de consumo máximo e majorando drasticamente o valor cobrado”
Essa nova regulamentação pode muito bem servir de base para a elaboração ou complementação de normativas de circulação e desenvolvimento de fluxos internos dos condomínios privativos, trazendo melhorias para o regimento interno.
Repórter da Revista dos Condomínios – Ou seja, ainda estamos diante da necessidade de criar leis que regem a utilização e carregamento desses veículos elétricos, por exemplo, em condomínios, sejam privados ou comerciais.
Ricardo Sigel – Sim, e nesse caso, há muitos relatos de conflitos entre vizinhos devido à insegurança causada pelo intenso fluxo destes modais, muitas vezes também utilizados por menores de idade.
Repórter da Revista dos Condomínios – Como tem sido a experiência de vocês, lá na Garage Plan Parking Design, em relação a esses riscos e problemas em geral?
Ricardo Sigel – A gente tem atuado com o desenvolvimento de projetos para esse perfil de empreendimento e têm abordado muito estas situações. Desde o estudo aprofundado das áreas de circulação de veículos e pedestres, trabalhando com uma compatibilização entre os mais variados fluxos e criando uma hierarquia com rotas seguras, não deixando de realizar a implantação de elementos de sinalização corretos e eficientes.
Carregamento e guarda dos veículos
Repórter da Revista dos Condomínios – Entendo, no sentido de reduzir riscos e acidentes.
Ricardo Sigel – Outros pontos relevantes acabam sendo os casos de armazenagem e carregamento de veículos elétricos. A falta de espaço já é uma realidade vivenciada por muitos empreendimentos, onde o desafio acaba sendo a definição desses locais – sendo que já há uma grande dificuldade para a guarda das “bikes” convencionais.
Riscos de incêndio: projetos enfrentam desafio
Repórter da Revista dos Condomínios – Como vocês na Garage Plan estão enfrentando esse desafio dos novos projetos?
Ricardo Sigel – Os projetos para novos empreendimentos já contemplam definições de locais mais adequados, prevendo não apenas uma disposição de layout confortável, mas também um ambiente mais arejado, devido ao iminente risco de incêndio das baterias enquanto estão sendo carregadas, da mesma forma que ocorre com o carregamento de automóveis elétricos.
Corpo de bombeiros: regulamentação
Repórter da Revista dos Condomínios – As regulamentações das cidades estão atualizadas em relação a esses riscos de incêndio?
Ricardo Sigel – Ainda que o corpo de bombeiros de algumas cidades já esteja dedicado à elaboração de uma regulamentação específica para esta finalidade, é preciso que sejam tomados alguns cuidados para adequação dos empreendimentos.
Repórter da Revista dos Condomínios – Outras recomendações?
Ricardo Sigel – Também é importante levar em conta a adoção de boas práticas, como por exemplo, garantir a segurança para o carregamento das baterias usando apenas carregadores originais e certificados, localizados em ambientes arejados e longe de materiais inflamáveis, sem extrapolar o tempo necessário para o carregamento completo. Registros continuados de acidentes
Repórter da Revista dos Condomínios – É… a imprensa tem reportado diversos acidentes, o que deveria ter provocado o estabelecimento de uma regulamentação que desse conta desses riscos para os condomínios.
Ricardo Sigel – A necessidade de regulamentação surge a partir de diversos relatos, como o impressionante caso de incêndio que ocorreu recentemente no bairro do Leblon, na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, causado pela explosão da bateria de uma bicicleta enquanto era carregada. O incidente destruiu um cômodo do apartamento e causou ferimento aos moradores.
Repórter da Revista dos Condomínios – Alguma recomendação para os condomínios antigos?
Ricardo Sigel – Para esses é outro desafio. Para condomínios já existentes existe a necessidade de adequar a rede elétrica para ser possível atender à grande e crescente demanda por carregadores. No caso da implantação de uma infraestrutura para a recarga de veículos (automóveis ou modais de menor porte) em áreas comuns, as regras devem ser submetidas à aprovação de uma assembleia geral.
Repórter da Revista dos Condomínios – Para o caso dos modais de pequeno porte, o que fazer?
Ricardo Sigel – É imprescindível que sejam previstos locais, de uso comum, propícios para evitar que os moradores tenham que realizar o carregamento das baterias em seus apartamentos, de maneira não segura. Adequação profissional do sistema de carregamento
Repórter da Revista dos Condomínios – O que devem fazer os condomínios que queiram buscar essa atualização para as áreas comuns?
Ricardo Sigel – Eles devem ser responsáveis por adequar o ambiente, além de instalar os carregadores, sempre seguindo às normas técnicas elétricas para instalações de baixa tensão e para sistemas de recarga, incluindo o dimensionamento do circuito elétrico e a proteção contra sobrecarga, entre outros. Isto, sempre com o acompanhamento de um engenheiro eletricista ou técnico especializado, devidamente registrado no CREA. Dessa forma, é importante que fiquem responsáveis pela gestão e cobrança por cada usuário, de maneira democrática e principalmente segura, de acordo com a convenção condominial.
Repórter da Revista dos Condomínios – Alguma recomendação ou comentário final?
Ricardo Sigel – Os condomínios privados estão se deparando com uma nova realidade, em diversas cidades brasileiras. A transição para a modernização e a contribuição para um futuro mais sustentável ocorrerão cedo ou tarde e precisam garantir que todas as normas de segurança e legislação sejam cumpridas.
Ricardo Sigel
Sócio fundador e diretor da GaragePlan. Diretor de Arquitetura é arquiteto formado (Universidade Tuiuti – PR). Ele traz o olhar técnico e funcional para a elaboração dos projetos GaragePlan. Deu início a sua carreira com projetos industriais na região metropolitana de Curitiba e traz em sua bagagem experiência de mais 7 anos com escritórios internacionais, com o desenvolvimento de arquitetura comercial, esportiva, “Parking” e urbanização. Com MB&A. Millet, Biosca & Ass. SL em Barcelona-ESP e ABAA, Alonso, Balaguer i Arquitectes Associats, SL em Barcelona ESP e Rio de Janeiro-BRA
