O Síndico e a convivência intergeracional
Estamos vivenciando, no dia a dia do síndico, a convivência de diversas gerações nos condomínios. E não estamos falando dos filhos dos condôminos, que corriam pelo condomínio, utilizavam o play a qualquer horário e provocavam aquela algazarra fora de hora. Hoje, são eles que pagam o condomínio, entram com os carros, reservam o salão de festas e utilizam as demais áreas comuns e mandam mensagens para o síndico.
Atualmente, tenho percebido mais uma exigência no papel do síndico, de mais uma habilidade, porém, pouco consciente e abordada. Nossa realidade atual exige habilidades para lidar com condôminos e moradores de diferentes faixas etárias. As diferenças não se manifestam apenas em relação ao uso das tecnologias. Cada uma das gerações está marcada por valores, hábitos e formas de comunicação distintas.
Gerações como os Baby Boomers (nascidos entre 1946–1964), Geração X (1965–1980), Millennials (1981–1996) e Geração Z (nascidos após 1997) compartilham os mesmos espaços, mas nem sempre os mesmos pontos de vista e expectativas. Essa diversidade pode ser uma riqueza, ou uma fonte constante de conflitos, dependendo da habilidade do síndico em lidar com ela.
Os mais antigos (Baby Boomers e Geração X) costumam valorizar regras, estabilidade, respeito à hierarquia e têm maior senso de comunidade. Já os mais jovens (Millennials e Geração Z) tendem a priorizar flexibilidade, inovação e diálogo horizontal e veem as relações interpessoais como redes de conexões digitais, enfraquecendo os laços comunitários. Eles não compreendem e muitas vezes não têm paciência para as “burocracias” e ritos condominiais.
Enquanto uns preferem reuniões presenciais e comunicados impressos, outros esperam soluções rápidas por aplicativos e uso das diversas tecnologias disponíveis para solucionar problemas, e eles sempre conhecem alguma. O síndico precisa estar “antenado” e não ficar obsoleto em relação às tecnologias.
Outra característica é a forma de se relacionar com o síndico. Enquanto os Baby Boomers podem resistir mais às mudanças, costumam querer estabilidade, são respeitosos das regras e apreciam o contato direto com o síndico. Já os da Geração X cobrarão transparência e resolução de problemas de forma objetiva. Os Millennials podem ser mais colaborativos e questionadores, querem participar das decisões e querem agilidade. Os Geração Z querem respostas mais rápidas ainda, de forma direta e digital, apreciam a inclusão e possuem pouca tolerância a processos lentos, burocráticos, normas tradicionais e ações e atitudes demoradas pela parte do síndico.
Diante desse cenário, o síndico precisa compreender essas diferenças e desenvolver uma habilidade essencial: inteligência interpessoal e uma comunicação assertiva com cada público. Mais do que nunca, as habilidades de um líder relacional e situacional são exigidas. Essas habilidades envolvem:
- Flexibilidade cognitiva: Estar aberto a novas ideias e formas de pensar, sem perder o senso de responsabilidade e organização. Estar ciente de que o que sempre funcionou pode não funcionar mais ou ainda ter melhores formas de fazer.
- Atenção à comunicação: Utilizar diferentes canais e linguagens para alcançar todos os moradores, do mural físico ao grupo de WhatsApp.
- Escuta ativa: Saber ouvir sem julgar, compreendendo as necessidades e expectativas de cada grupo. Compreender que eles têm valores e necessidades diferentes, mas compartilham espaços.
- Mediação com empatia: Conectar-se com o outro e mediar conflitos com imparcialidade e sensibilidade.
- Gestão participativa: Promover espaços de diálogo onde todas as gerações se sintam ouvidas e respeitadas, se sintam pertencentes ao lugar que vivem.
Transformar essa convivência e o relacionamento com o próprio síndico é o desafio do momento. Ser um líder relacional, capaz de construir essas relações entre diferentes mundos. Ao cultivar essa habilidade, ele transforma o condomínio em uma comunidade mais unida, respeitosa e colaborativa, onde as diferenças não se anulam, mas se complementam.
Um grande abraço.
Ariane Padilha é Professora, Psicóloga, Especialista em Gestão de Recursos Humanos e Marketing, Consultora e Síndica Profissional da Fator G Condomínios. Professora e Coordenadora do Curso De Pós Graduação em Gestão Condominial/FAMAQUI.
