Quando o síndico precisa voltar ao seu lugar
Uma onda de protestos contra síndicos autoritários vem ganhando espaço na mídia e nas ruas. Moradores têm se organizado para denunciar gestões marcadas por abuso de poder, decisões unilaterais e práticas incompatíveis com a vida em coletividade. O episódio ocorrido em Goiânia trouxe visibilidade nacional ao tema, mas não inaugurou o problema. Apenas escancarou uma distorção antiga: a confusão entre gestão condominial e autoridade absoluta.
É fundamental afirmar, de forma institucional e política, que não se trata de demonizar a função do síndico. Trata-se de recolocá-la no seu devido lugar. O síndico não é dono do condomínio, não é superior aos condôminos e não exerce poder de polícia. É um gestor eleito, com mandato temporário, sujeito à fiscalização e aos limites impostos pela lei, pela convenção e pela assembleia. Quando a figura do síndico se transforma em centro de poder incontestável, algo falhou antes. Falhou o conselho que não fiscaliza, falharam os condôminos que se calam diante de abusos, falhou a coletividade que normaliza práticas autoritárias em nome da conveniência ou do medo do conflito. Um síndico autoritário não se sustenta sozinho. Ele é, muitas vezes, produto do silêncio coletivo.
Os protestos revelam um esgotamento desse modelo personalista de gestão. Revelam também que uma parcela desses síndicos está em extinção. A nova geração de síndicos já compreende que administrar não é mandar, que gerir não é intimidar e que liderar não é impor. São profissionais que entendem o condomínio como uma instituição, não como extensão da própria vontade.
O caso de Goiânia expôs o extremo de uma lógica equivocada, mas a responsabilidade institucional é compartilhada. Condôminos que se omitem diante de atrocidades administrativas contribuem para sua perpetuação. Governança exige participação, fiscalização e coragem para interromper abusos antes que eles se agravem.
Recolocar o síndico no seu devido lugar é fortalecer o condomínio como espaço democrático. Não se trata de fragilizar a gestão, mas de torná-la legítima. Condomínios não precisam de síndicos fortes. Precisam de instituições fortes, limites claros e comunidades que não se silenciam diante do autoritarismo.
CLEUZANY LOTT é síndica, advogada especialista em Direito Condominial.
