Infestação de ratos em apartamentos: até onde vai a empatia e onde começa responsabilidade coletiva?
Recentemente, vivi uma situação delicada que me fez refletir profundamente sobre o papel do síndico e dos moradores diante de casos de acúmulo de objetos em condomínios. Uma moradora idosa, que há anos vive sozinha, passou a apresentar comportamento de acumulação severa — e o resultado foi uma infestação de ratos no apartamento que ficava no andar térreo do condomínio, e que rapidamente começou a se espalhar para unidades vizinhas.
Como síndica, fui chamada às pressas. A cena era preocupante: mau cheiro, restos de alimentos, objetos empilhados até o teto e sinais claros de risco à saúde pública. A primeira reação é humana — compaixão. Sabemos que, por trás de um caso de acúmulo, quase sempre existe uma questão emocional, psicológica ou até social. Mas, ao mesmo tempo, existe uma linha tênue entre a empatia e a omissão diante de um problema que ameaça toda a coletividade.
Em condomínios, a responsabilidade é compartilhada. O bem-estar de todos depende da conservação de cada unidade. Quando um apartamento se transforma em um foco de pragas urbanas, como ratos, baratas e cupins, não se trata mais de uma questão particular — é uma questão de segurança, saúde e sanidade coletiva.
A primeira medida, nesses casos, é sempre o diálogo respeitoso. Conversei com familiares, busquei contato com a assistência social do município e expliquei a situação com cuidado, sem expor a moradora. Mas é importante destacar que, se não houver colaboração, o condomínio pode — e deve — acionar a Vigilância Sanitária e o Ministério Público, com base no Código Civil e nas normas de convivência condominial.
A presença de acumuladores em condomínios é um tema sensível e ainda cercado de tabus. Muitos preferem “fechar os olhos” por pena ou medo de constrangimentos. Mas ignorar o problema não o torna menor — ao contrário, ele cresce, literalmente. Infestações de ratos e insetos, infiltrações causadas por excesso de lixo, mau cheiro e até risco de incêndio são consequências reais e graves. Por isso, como síndica profissional, acredito que o caminho é o equilíbrio entre humanidade e firmeza. Precisamos agir com empatia, mas também com responsabilidade administrativa. A lei está do nosso lado, e a saúde dos demais moradores precisa ser preservada.
Também é essencial envolver os condôminos. Informação é poder. Falar abertamente sobre acúmulo compulsivo, higiene, segurança e convivência saudável ajuda a criar uma cultura de cuidado mútuo — e diminui o estigma sobre quem precisa de ajuda
No fim, lidar com acumuladores é mais do que resolver um problema de limpeza: é um teste de solidariedade e de limites dentro da vida em comunidade. É entender que empatia não significa omissão — e que cuidar do outro também é garantir que todos vivam com dignidade, saúde e segurança.
AMANDA ACCIOLI – Síndica Profissional proprietária da Accioli Condominial Sindicatura e Consultoria. Diretora Nacional da Sindicatura na Anacon.
