Carregadores de veículos elétricos: os síndicos têm que tomar muito cuidado
Os carros elétricos são hoje uma realidade no mundo. E, no Brasil, não é diferente. Mas o que esse modelo de alimentação de motor de veículo guarda de vantagem e desvantagem, cuidados para os proprietários?
Para responder essa e outras perguntas, fomos conversar com o engenheiro civil, Maurício Ceotto Brandão.
Repórter da Revista dos Condomínios – E aí, Ceotto, o que você pode iniciar falando para mim e os nossos leitores?
Maurício Ceotto – Só para apresentar um contexto, imagine que os veículos elétricos são como estrelas que acabam de surgir no nosso céu automotivo. Brilhantes, silenciosos e promissores, eles estão transformando a maneira como nos movemos, ajudando a reduzir a poluição e preparando o terreno para um futuro mais sustentável. No entanto, assim como toda estrela, eles trazem seus próprios desafios, especialmente quando falamos sobre segurança e as tão comentadas baterias de lítio.
Repórter da Revista dos Condomínios – Ok. Fale mais sobre as baterias, riscos e outras características.
Maurício Ceotto – As baterias de lítio são o coração dos veículos elétricos, a fonte de energia que faz tudo funcionar. Mas, como todo coração, elas precisam ser bem cuidadas. Você já ouviu falar que eletricidade pode ser perigosa, certo?
Repórter da Revista dos Condomínios – Com certeza. E a forma de lidar com ela pode mudar tudo.
Maurício Ceotto – Certo. Agora imagine uma quantidade significativa de energia armazenada em um pequeno espaço, como uma bateria de lítio. Se essa energia não for tratada com o devido cuidado, o que é uma fonte de poder, pode se tornar um risco especialmente porque as causas e consequências de incêndio nelas não foram avaliadas com o rigor necessário.
Repórter da Revista dos Condomínios – Acredito que não, pelo número de acidentes com essas motos elétricas e, imagino, pela falta de informação a respeito da forma de usar e carregar.
Maurício Ceotto – Veja, nos últimos anos, com o crescimento exponencial dos veículos elétricos, o mundo começou a perceber que a segurança não pode ser subestimada. O carregamento inadequado, o armazenamento sem as devidas precauções e o transporte mal planejado tem gerado incidentes que chamaram a atenção da indústria, dos reguladores, dos Corpos de Bombeiros e, claro, do público em geral.
“Como crescimento exponencial dos veículos elétricos, o mundo começou a perceber que a segurança não pode ser subestimada”
Repórter da Revista dos Condomínios – Sim. E foi por isso que eu busquei conversar com você. Vi, em diversos meios de comunicação, reportes de acidentes com veículos elétricos.
Maurício Ceotto – Sim, e quando falamos em segurança de veículos elétricos, não estamos apenas discutindo um tema técnico. Este é um assunto que toca diretamente a vida e o patrimônio das pessoas. Desde os motoristas de carros elétricos até aqueles que trabalham no transporte e manutenção desses veículos. É por isso que a conscientização sobre essas medidas preventivas é essencial para garantir que a transição para a mobilidade elétrica ocorra de maneira segura e eficiente.
Repórter da Revista dos Condomínios – E quando se fala de segurança de vidas e, também de patrimônio, não se pode titubear. A atenção tem que ser total. Acidentes em garagens de prédio pode gerar uma situação bem arriscada para todos os moradores, por exemplo.
Maurício Ceotto – É fundamental que se tenha conhecimento das melhores formas de proteger as edificações, os veículos elétricos e suas baterias, garantindo não apenas o funcionamento ideal, mas também a segurança de todos. Dessa forma, com conhecimento e medidas simples, como a escolha do local de carregamento e o monitoramento de temperatura, podem ser a diferença entre um funcionamento seguro para um acidente, que poderia ser evitado.
Repórter da Revista dos Condomínios – Conhecimento é tudo.
Maurício Ceotto – O conhecimento sobre este tema emergente está em constante evolução. As práticas de segurança para carregamento de veículos elétricos é o que há de mais novo e relevante, sendo necessário atender as regulamentações e tecnologias aplicadas.
Repórter da Revista dos Condomínios – É… e as baterias de carros elétricos têm muita energia armazenada que pode gerar um incêndio por muito tempo, não é verdade?
Maurício Ceotto – Quando pensamos nos veículos elétricos e nas suas baterias de lítio, estamos lidando com uma grande quantidade de energia acumulada em pequenos espaços. Para garantir que essa energia seja usada de maneira segura, as normas e regulamentações são essenciais. Elas são as regras do jogo, definindo como instalar carregadores, como transportar e armazenar essas baterias e o que fazer em situações de risco.
Repórter da Revista dos Condomínios – Podemos dizer que os acidentes que estamos assistindo têm muito de desconhecimento sobre os cuidados de carregamento e uso?
Maurício Ceotto – É uma questão de seguir as normas técnicas, recomendações de uso e as atualizações em relação aos cuidados. No Brasil, as normas técnicas específicas para carregadores de veículos elétricos ainda estão sendo implementadas, mas já há regulamentações em vigor. A ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), por exemplo, está elaborando padrões que irão orientar desde a instalação de carregadores até as medidas de segurança no transporte e armazenamento.
Repórter da Revista dos Condomínios – E também tem o regramento do Corpo de Bombeiros.
Maurício Ceotto – Além disso, os Corpos de Bombeiros dos estados também estão aprovando Normas Técnicas que disciplinam exigências e parâmetros de segurança contra Incêndio e Pânico aplicáveis às Ocupações destinadas a garagens e/ou locais que possuam Sistemas de Alimentação de Veículos Elétricos (SAVE).
Repórter da Revista dos Condomínios – A preocupação do proprietário de um veículo elétrico é carregar para poder usar no dia seguinte. Mas não é tão simples assim.
Maurício Ceotto – Com o crescimento exponencial dos veículos elétricos no Brasil e no mundo, é fundamental que as medidas de segurança sigam as melhores práticas para evitar incidentes e minimizar riscos.
Repórter da Revista dos Condomínios – E o primeiro passo é?…
Maurício Ceotto – O uso de equipamentos certificados é o primeiro passo para garantir a segurança no carregamento de veículos elétricos. Equipamentos não certificados, ou de origem duvidosa, são como “curingas” que podem trazer consequências imprevisíveis, como sobrecargas, curtos-circuitos e até incêndios. Seguir as normas é essencial para garantir que o carregamento ocorra de forma segura.
Repórter da Revista dos Condomínios – O que você recomendaria em termos de segurança para os gestores de condomínios?
Maurício Ceotto – Além das questões técnicas e operacionais, é importante que os gestores das edificações também estejam atentos às providências legais junto a ANEEL e seguradoras que, embora ainda não sejam obrigatórias em alguns casos, são altamente recomendadas para aumentar a segurança e proteger o empreendimento legalmente em caso de incidentes.
Repórter da Revista dos Condomínios – Com a quantidade de veículos elétricos sendo carregada dentro de condomínios… talvez seja recomendável e até uma preocupação para os síndicos.
Maurício Ceotto – A prática de carregar veículos elétricos, bicicletas, patinetes e scooters dentro de unidades privadas está se tornando cada vez mais comum, principalmente em residências unifamiliares e multifamiliares
No entanto, esses locais apresentam desafios específicos que exigem medidas mitigadoras adequadas para garantir a segurança.
Repórter da Revista dos Condomínios – Fala para a gente algumas recomendações para a instalação desses carregadores elétricos.
Maurício Ceotto – A primeira etapa para a implantação de carregadores em condomínios deve envolver a análise de capacidade elétrica, conduzida por um especialista. Este profissional avaliará a reserva de carga disponível e quantificará a demanda necessária para atender as vagas de carregamento. Após a avaliação inicial, as informações devem ser transmitidas ao engenheiro assistente técnico da edificação. Este profissional complementará a análise inicial, verificando as condições da estrutura civil, ventilação, drenagem, impermeabilização, combate a incêndio e rotas de fuga, elaborando assim um projeto com a devida ART – Anotação de Responsabilidade Técnica, o qual deverá ser aprovado junto ao Corpo de Bombeiros.
Repórter da Revista dos Condomínios – Devido ao que está em jogo, vidas e patrimônio, todo cuidado é pouco.
Maurício Ceotto – O assistente técnico pode recomendar ajustes ou limitações, como a necessidade restringir a instalação de carregadores a um número específico de vagas (por exemplo, 50% das vagas), mesmo que a análise elétrica inicial sugerisse uma capacidade para 100% das vagas.
Repórter da Revista dos Condomínios – Com certeza, devido às condições da estrutura civil, ventilação etc. que seriam fatores limitantes para um determinado condomínio, estou correto?
Maurício Ceotto – Vamos lá. Considerações adicionais: mesmo que o estudo elétrico indique viabilidade total, outros fatores, como ventilação adequada, drenagem e rotas de fuga, podem limitar a instalação a uma quantidade reduzida de vagas.
Repórter da Revista dos Condomínios – Ou seja, temos que, digamos assim, chegar a um alinhamento de conhecimentos para aprovação de um projeto desses.
Maurício Ceotto – Sim. A etapa de análise completa envolve o cruzamento dos dados da avaliação elétrica com as demandas de outras disciplinas para validar a viabilidade estrutural e funcional da instalação dos carregadores.
Repórter da Revista dos Condomínios – Alguma outra consideração adicional?
Maurício Ceotto – Somente após a conclusão da análise completa é recomendada a contratação de uma empresa elétrica especializada para elaborar o projeto final de instalação, incluindo o posicionamento adequado dos carregadores com base nas demandas integradas de cada disciplina.
Repórter da Revista dos Condomínios – E em relação ao sistema contra incêndio?
Maurício Ceotto – Os sistemas de combate a incêndio desempenham um papel vital na contenção e supressão de chamas, principalmente em locais de carregamento de veículos elétricos. Em situações emergenciais, a resposta rápida dos sistemas de extinção pode evitar que pequenos incidentes se transformem em catástrofes
Repórter da Revista dos Condomínios – Com risco potencial para a vida, dependendo do tamanho do condomínio, de até milhares de vidas.
Maurício Ceotto – De forma sucinta, relacionamos abaixo medidas mitigadoras além de providências técnicas e legais necessárias à segurança da edificação, tudo com base em regulamentações e conhecimentos técnicos disponíveis a nível mundial:
Maurício Ceotto Brandão Engenheiro Civil (UFES/1985) com mais de 35 anos de experiência no mercado imobiliário da Grande Vitória, no setor de gerenciamento de empresa de Construção Civil – CEOTTO ENGENHARIA. Experiência em gerência de contratos e consultoria em engenharia, assessorando mais de 40 empresas do mercado imobiliário para regularização, financiamento e viabilização de empreendimentos imobiliários. Desde 2008, é consultor para Laudos de Inspeção Predial, Plano de Manutenção Predial, Vistoria e Laudos de Habitabilidade, Estabilidade e Salubridade e ainda Consultor e Assistente Técnico para grandes empresas de Construção Civil, para inúmeras construtoras. Como Assistente Técnico em diversas Ações Judiciais, foi o primeiro perito a constatar a contaminação de concreto pelo FGD e autor da minuta de Lei que tornou obrigatório o Laudo de Inspeção Predial no município de Vitória. Ocupa o cargo de Inspetor Chefe da Inspetoria de Vila Velha do CREA ES.
