O diabo veste prada e a nr-1
Recentemente assisti ao The Devil Wears Prada e uma das coisas que mais me chamou atenção não foi a moda, o luxo ou a influência de Miranda Priestly. Foi o ambiente. O silêncio tenso da equipe, o medo constante de errar, as pessoas sempre em estado de alerta e a sensação de que ninguém podia demonstrar cansaço. Há uma cena em que o telefone toca e todos mudam imediatamente de postura. O clima é de pressão permanente. E, enquanto assistia, comecei a pensar em algo totalmente fora do universo fashion: os condomínios. Pode parecer uma comparação improvável, mas a verdade é que muitos ambientes condominiais vivem uma dinâmica muito parecida. Porteiros lidando com pressão o dia inteiro, zeladores sobrecarregados, síndicos emocionalmente esgotados, equipes trabalhando sempre no limite e uma cultura de urgência constante, onde tudo parece inadiável. E foi impossível não relacionar isso à atualização da NR-1 e às discussões sobre riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Durante muito tempo, quando se falava em segurança do trabalho, o foco estava apenas nos riscos físicos. Agora, a NR-1 amplia esse olhar e passa a considerar também fatores emocionais e organizacionais que podem afetar a saúde mental dos trabalhadores. E isso não envolve apenas funcionários próprios dos condomínios.
A discussão também alcança trabalhadores terceirizados que convivem diariamente naquele ambiente operacional. Claro que gestão exige cobrança, responsabilidade e organização. O problema começa quando a pressão deixa de ser algo pontual e passa a fazer parte permanente da rotina. No filme, o mais impressionante não era apenas a personalidade rígida de Miranda Priestly, mas o fato de que todos ao redor já consideravam normal trabalhar sob ansiedade constante. E talvez essa seja a reflexão mais importante para os condomínios. Muitas vezes, ambientes emocionalmente desgastantes vão sendo normalizados aos poucos.
A equipe que trabalha sempre “apagando incêndio”, a comunicação baseada apenas em cobrança, a sensação de que qualquer erro se transforma em crise e profissionais que já iniciam o dia sob tensão. O resultado disso aparece no aumento de conflitos, afastamentos, rotatividade e até riscos trabalhistas.
Ao terminar o filme, fiquei pensando que talvez o maior desafio da gestão moderna seja justamente encontrar equilíbrio entre eficiência e humanidade. Porque nenhuma estrutura funciona bem por muito tempo quando o medo se transforma em método de gestão.
CLEUZANY LOTT é síndica, advogada especialista em Direito Condominial.
