Riscos das instalações elétricas para recarga de veículos eletrificados
A sociedade brasileira vem assistindo uma série de acidentes, inclusive com incêndios associados, a veículos elétricos em momento de recarga das baterias. Esses acidentes muitas vezes ocorrem em lojas, mas também em condomínios de apartamentos ou de casas. Mas o que é um veículo elétrico, tecnicamente falando, e por que temos assistido a esses acidentes? Para entender melhor a questão e evitarmos esses acidentes e cuidar dos ativos de condomínios (e por extensão de lojas) fomos falar com Gustavo….
O QUE É UM VEÍCULO ELÉTRICO?
Repórter da Revista dos Condomínios – O que é um veículo elétrico, tecnicamente falando e por que estamos assistindo a tantos acidentes no momento de recarga e mesmo depois de recarregados?
Gustavo Antônio da Silva – Veículo elétrico é um veículo movido a motor elétrico no qual a corrente elétrica é proveniente de um sistema recarregável de armazenamento de energia (bateria). Os riscos de incêndio em veículos eletrificados são as baterias e as instalações elétricas de recarga. As instalações elétricas são umas das principais fontes de ativação de incêndios no Brasil e no Mundo.
Repórter da RDC – O que se faz para reduzir riscos?
Gustavo Antonio da Silva – Para reduzir os riscos de incêndios temos que seguir as normas brasileiras. Primeiro tempos que lembrar que as instalações elétricas têm como tudo uma vida útil, irei fazer algumas perguntas para refletirmos sobre a eletricidade. As Normas da ABNT são obrigatórias por serem citadas na NR 10 e no Código de Defesa do Consumidor. Em 2002, foi publicada a NBR 14136 modificando o padrão de tomada brasileira para uso doméstico e criando a tomada de 10 e 20 A. O Inmetro determinou que a partir de 1º de janeiro de 2011 ficou proibido a venda de tomadas no padrão antigo em todo o território nacional.
Repórter da RDC – Ou seja, as tomadas que foram trocadas, atualizadas, estão velhas? E podemos pensar que muitas nem foram atualizadas.
Gustavo Antonio da Silva – Passados 15 anos, quantas tomadas do padrão antigo ainda são encontradas instaladas? Se considerarmos que foram compradas na última remessa das fábricas tem hoje 15 anos de uso e foram compradas antes. E muitos usam adaptadores ou simplesmente trocaram a tomada sem verificar as condições do cabeamento e para facilitar o uso colocaram tomadas de 20 A, sem verificar se o disjuntor e fiação foram especificados para esta corrente elétrica.
Repórter da RDC – E, com certeza, a maioria nem tem o neutro aterramento elétrico?
Gustavo Antonio da Silva – Exato. Temos que seguir a sequência de ligação do neutro, fase e terra para a instalação correta das tomadas elétricas. Eu posso dizer que tenho ligação de terra na minha instalação elétrica? Qual o percentual dessa situação nas ocasiões quando ocorreram acidentes?
Repórter da RDC – E as residências, naquele tempo, não tinham a quantidade de eletrodomésticos que têm hoje. É preciso considerar, correto?
Gustavo Antonio da Silva – Sim. Com certeza. As residências receberam neste século novos equipamentos como roteadores de Internet, Notebooks, Carregadores de celular, televisores maiores, ar condicionado, freezers, geladeiras duplex, ventiladores de teto, sanduicheiras, fogão elétrico, forno, sistemas fotovoltaicos etc. Será que a fiação foi dimensionada para estas: mudanças? O comentário corriqueiro para esse problema é: “qualquer problema chamo o eletricista e ele aumenta a corrente do disjuntor”, como se esta fosse a solução correta.
Repórter da RDC – E some-se a entrada desses eletrodomésticos, os ciclomotores…
Gustavo Antonio da Silva – E agora chegaram novos ‘moradores’: veículos elétricos, como bicicletas e patinetes; e os híbridos, como os automóveis com dois tipos de motores. Diante disso, fica a pergunta: para atendê-los, basta apenas instalar mais uma tomada e um disjuntor?
ADEQUAÇÃO DAS INSTALAÇÕES ELÉTRICAS
Repórter da RDC – Como está a atualização de nossas normas de segurança para as instalações elétricas? Estão acompanhando o passo das mudanças culturais de consumo? Gustavo Antonio da Silva – As normas brasileiras? Elas vêm sendo atualizadas criando novos dispositivos elétricos para a nossa proteção e dos equipamentos. O cabo elétrico tem a função principal de conduzir corrente elétrica com segurança no circuito eletrônico, alimentando as diversas cargas existentes no circuito elétrico como lâmpadas, aparelhos e máquinas. A especificação correta da seção do condutor (espessura) é importantíssima para suportar a corrente elétrica da carga sem causar incêndios.
Repórter da RDC – Ou seja, eventualmente, nos locais dos acidentes divulgados, essa estrutura pode não estar adequada. O que precisamos para ter uma instalação elétrica correta?
Gustavo Antonio da Silva – O disjuntor termomagnético (DTM), ou simplesmente disjuntor é um dispositivo de segurança essencial que protege instalações elétricas contra sobrecargas e curto-circuito nos circuitos elétricos. O disjuntor interrompe automaticamente o circuito elétrico quando a corrente elétrica excede a corrente elétrica do disjuntor, podendo ser rearmado manualmente após a correção do problema. O Interruptor Diferencial Residual (IDR), conhecido também como DR, tem a função de proteger pessoas e animais contra choques elétricos, detectando fugas de corrente de 30 mA e interrompendo o circuito imediatamente. E também atua na prevenção de incêndios causados por falhas de isolamento dos equipamentos e fiação, sendo obrigatório pela norma NBR 5410, principalmente em áreas molhadas como banheiros, cozinhas, áreas de serviços e externas. O DPS (Dispositivo de Proteção contra Surtos) tem a função de proteger eletroeletrônicos contra picos de tensão (sobretensões) causados por descargas atmosféricas (raios) e manobras da rede elétrica. O DPS direciona a tensão excedente para o aterramento, evitando queima de eletroeletrônicos, danos à instalação elétrica e diminuindo riscos de incêndio.
Repórter da RDC – Então podemos dizer que, possivelmente, esses dispositivos, nesses locais de acidentes, não estavam instalados ou devidamente calculados para prover a segurança dos locais?
Gustavo Antonio da Silva – Por isto temos que ter em as perícias em caso de incêndio para investigar e identificar as falhas e termos estatísticas reais das causas de incêndio. E não termos as falsas informações e criando interpretações erradas dos problemas
Repórter da RDC – Tem que haver um projeto adequado para cada edificação?
Gustavo Antonio da Silva – Cada edificação tem as suas particularidades e precisa de um projeto elétrico. Você não pode ligar um chuveiro ou ar-condicionado em qualquer tomada com qualquer fiação. Você precisa de sistema de aterramento, uma tomada, um cabo, um disjuntor, um DR, um DPS especificados corretamente. A especificação e instalação incorreta poderá gerar uma falsa impressão de segurança.
Repórter da RDC – Mas para instalar algo adequado, você precisa de alguém habilitado. Gustavo Antonio da Silva – Sim. Precisa de um profissional habilitado e registrado no CREA para ser o responsável técnico pelo projeto e instalação exigindo dele a emissão da ART (Anotação de Responsabilidade Técnica). Agora você tem uma instalação elétrica da sua residência adequada.
Repórter da RDC – E as inspeções, fiscalizações dessas instalações?
Gustavo Antonio da Silva – É importante fazer uma inspeção das instalações elétricas para verificar as não conformidades e corrigir as mesmas. Alguns Corpos de Bombeiros Militares exigem a inspeção elétrica para liberação do AVCB (Auto Vistoria do Corpo de Bombeiros).
NOVAS CARGAS
Repórter da RDC – A qualidade do fornecimento de energia também pode influenciar nessa conta?
Gustavo Antonio da Silva – Interfere, sim. A medição da qualidade de energia é realizada com os analisadores especializados conectados ao circuito elétrico (tensão e corrente) que coletam as informações elétricas em tempo real. Sendo analisados diversos parâmetros como harmônicas, fator de potência, variações de tensão e frequência para identificar distúrbios, garantindo o funcionamento seguro de equipamentos e conformidade com normas, bem como a energia consumida e as potências nos diversos horários e dias da edificação, sendo recomendável ser feito por 7 dias corridos em 24 horas. Desse modo, pode-se obter todas as variações e facilitar o diagnóstico pelo profissional contratado, emitindo um relatório da qualidade de energia da edificação. A instalação de novas cargas devem ser analisadas para verificar se o circuito elétrico da edificação suporta. Dessa forma, evita- -se sobrecargas que podem causar incêndios. Devendo fazer um checkup das instalações elétricas.
Repórter da RDC – E a gente nem considerou o verão ou o aumento das médias de calor ao longo das últimas décadas…
Gustavo Antonio da Silva – Com a onda de calor no mundo, queremos instalar ar-condicionado, mas quantos podem ser instalados nas residências sem sobrecarregar os disjuntores elétricos e causar desarmes dos disjuntores das edificações e também do disjuntor geral do prédio, pois o prédio aprovou uma potência a ser consumida pela edificação, caso tenha necessidade de aumentar a potência deverá submeter a disponibilidade da concessionária.
RECARGA
Repórter da RDC – E na questão dos pontos de recarga, em si? Alguma recomendação?
Gustavo Antonio da Silva – Na instalação de pontos de recarga elétrica, um dos principais problemas é a falta de vagas exclusivas para isso. Entendo que não se pode deixar que cada morador faça uma ligação independente no quadro elétrico do seu imóvel, pois uma hora a instalação elétrica do prédio vai colapsar.
Repórter da RDC – Qual o ideal?
Gustavo Antonio da Silva – O ideal seria vagas específicas rotativas para a recarga ou instalar um sistema de controle inteligente da recarga elétrica que irá gerenciar as recargas simultâneas, fazendo que a carga instalada para recarga de veículos seja dividida entre as estações. Existem sistemas de gerenciamento de recarga que fazem a medição da recarga que cada usuário utilizou em um determinado tempo ou faz a cobrança via aplicativo. Existem quatro modos de recarga, conforme a NBR IEC 61851-1: 2021:
Modo 1 (até 2,3 kW): a recarga é em corrente alternada utilizando uma tomada comum, a recarga é lenta. Proibido em locais públicos e garagens coletivas;
Modo 2 (até 2,3 kW): a recarga é em corrente alternada por meio da instalação elétrica fixa local, a recarga é lenta. Usado para solução emergencial.
Modo 3 (até 22 kW): a recarga é realizada em corrente alternada por meio de estação específica para recarga (Wallbox), recarga é semirrápida. O estação de recarga comunica com o veículo elétrico e gerencia a recarga, verifica o sistema de aterramento;
Modo 4 (até 350 kW): a recarga é realizada em corrente contínua, chamada também de eletroposto, a recarga é rápida. Exige infraestrutura de subestação e transformadores dedicados.
RECOMENDAÇÕES E CUIDADOS IMPORTANTES
Repórter da RDC – Mais uma vez, a necessidade de um profissional gabaritado para dar conta de planejar essa estrutura.
Gustavo Antonio da Silva – Para mitigar acidentes, sim. Mas repare, tem outros pontos importantes de cuidado. Outro deles é o tempo de recarga da bateria. Ele dependerá da capacidade da bateria, potência do modo de recarga, tensão elétrica e corrente elétrica. Não podemos esquecer das recargas das bicicletas, recomendamos não recarregar dentro dos apartamentos e próximos as portas de acesso, bem como transportar nos elevadores. Sendo recomendado instalar pontos de recarga no bicicletário.Fazendo um comparativo, uma estação de recarga de 7,4 kW faz a recarga de um carro popular elétrico em X horas; um chuveiro ducha tem potência de 5,5 kW; um ar-condicionado 9000 BTU tem uma potência de 2,6 kW.
MEDIDAS DE SEGURANÇA CONTRA INCÊNDIO E PÂNICO
Repórter da RDC – Essa diretriz (SAVE) tem força de lei? Como é isso?
Gustavo Antonio da Silva – Veja, o Ligabom que é a associação dos comandantes dos Corpo de Bombeiros Militar dos Estados e Distrito Federal publicou uma diretriz, mas é lei, pois cada Estado legisla, conforme determina a NR 23 do Ministério do Trabalho e Constituição Federal . Alguns estados já publicaram as suas legislações e outros estão em consulta pública. Nesta semana o Corpo de Bombeiros de São Paulo publicou a alteração na sua legislação, consulte um profissional habilitado sobre as normas de segurança contra incêndio e pânico do seu estado
Repórter da RDC – Conclusão?
Gustavo Antonio da Silva – Projetar uma instalação de recarga não é um serviço de elétrica básico, análise as suas instalações elétricas e o profissional contratado. Não faça gambiarras. Não permita investir milhares de reais na compra de um veículo elétrico e poucos reais na instalação elétrica. Evite processos judiciais e não coloque o seu patrimônio e vidas em risco. Utilize materiais e equipamentos certificados pela ABNT.
Gustavo Antonio da Silva Engenheiro Eletricista, Civil e Segurança do Trabalho; mestre em Gestão de Riscos; assistente Técnico em Perícias e sócio Gerente da Equipaeng desde 1996. É professor universitário, Presidente da AMEI – Associação Mineira de Engenharia de Incêndio e Conselheiro do CREA MG.
